A materialidade da ideia.
O que a arquitetura efêmera dos estandes me ensinou sobre imaginar o que ainda não existe — e por que isso deveria valer também para a casa onde você mora.
De todas as coisas que o ser humano faz, talvez a mais extraordinária seja também a mais corriqueira: imaginar o que ainda não existe. A gente faz isso o tempo todo, quase sem reparar. Mas há um momento em que essa capacidade deixa de ser pensamento e vira matéria — quando a coisa imaginada ganha peso, textura, sombra, e passa a ocupar espaço no mundo. Esse instante, a passagem da ideia para a matéria, é o que mais me fascina no design. E é também o que me ocupou nos últimos anos.
O laboratório do efêmero
Poucos lugares exercitam essa passagem com tanta liberdade quanto a arquitetura efêmera — os estandes, a cenografia, as estruturas que existem por alguns dias e depois desaparecem. Justamente por serem temporárias, elas podem ousar. Não carregam o peso da permanência, da norma, do 'e se der errado fica para sempre'. São um campo de testes. Um lugar onde se imagina muito, se executa, se observa o que funciona — e se descarta o resto sem culpa.
O curioso é o que acontece depois. O que se testa no efêmero, com frequência, vira o usual. As feiras de tendências, os salões de automóvel, as semanas de moda: são todos laboratórios do futuro disfarçados de evento. Ali se ensaia, em escala e em público, aquilo que daqui a alguns anos estará na sua sala, no seu carro, na sua rua. O provisório é onde o permanente faz seus primeiros ensaios.
O provisório é onde o permanente faz seus primeiros ensaios.
Tirar do papel
Imaginar é só o começo. O trabalho mesmo — o que me deu prazer de verdade nesses anos — é o outro lado: tirar do papel. Fazer a ideia ficar de pé. Porque entre o desenho brilhante e a coisa construída existe um abismo cheio de detalhes que ninguém vê quando dá certo, e que todo mundo vê quando dá errado. Encaixe, prazo, material, tolerância, a peça que não chega, o ângulo que na maquete fechava e no chão da feira não fecha. A materialidade da ideia é feita desses milímetros.
Essa semana soube que um projeto que produzi em 2025 foi premiado: o estande imersivo da Roca Cerámica, reconhecido com um iF Design Award. Não fui o autor do design — esse mérito é do arquiteto Carlos Bianco, da Arquitecto Arquitetos Associados, com quem já realizei alguns projetos juntos. Foi, como sempre, um prazer enorme acompanhar a inteligência por trás daquele trabalho de perto. Eu era o produtor responsável pela execução — trabalhava à época numa produtora especializada em grandes projetos de marca — e o desafio era igualmente difícil: garantir que a execução fizesse jus à ideia.
Era muito revestimento cerâmico, estruturas de ferragem e um jogo de espelhos — tudo milimetricamente preparado e construído, porque num projeto assim o erro de um centímetro não é detalhe, é a diferença entre encantar e constranger. Quando ficou pronto, o resultado era à altura do que tinha sido imaginado. Ninguém precisou abrir mão da ideia para que ela coubesse na realidade. O prêmio confirmou o que o espaço já dizia.
O que isso tem a ver com a sua casa
Conto tudo isso porque cheguei a uma conclusão que mudou o jeito como eu olho para os imóveis que hoje ajudo a encontrar. O que eu admiro na arquitetura efêmera — esse rigor obsessivo para que a coisa funcione e encante ao mesmo tempo — é exatamente o que falta em boa parte do que se constrói para durar.
Reparo nisso o tempo todo. Um apartamento pode ter a metragem certa, o endereço certo, a planta vendável — e ainda assim não encantar. Falta a ele aquilo que um bom estande tem de sobra: a sensação de que alguém imaginou a experiência de quem vai estar ali dentro, e depois trabalhou com afinco para entregá-la. Funcionar e encantar não são opostos. São as duas metades da mesma exigência. E nenhuma das duas acontece por acaso.
Funcionar e encantar não são opostos. São as duas metades da mesma exigência — e nenhuma delas acontece por acaso.
Porque é isto que o efêmero ensina sem piedade: nada fica bom sozinho. Não existe espaço encantador sem planejamento, sem trabalho, sem avaliação, sem rigor. O estande que parece mágico na feira é resultado de meses de cálculo e centenas de decisões pequenas. A casa que faz você respirar fundo ao entrar também. A diferença é que, no efêmero, quem não tem método é desmascarado em três dias. No permanente, o erro se disfarça por décadas — e a gente acaba chamando de 'normal' um espaço que apenas se conformou em não encantar.
A virada de espaço de que eu tanto falo começa aí: em tratar a casa permanente com a mesma seriedade e a mesma ambição que se dedica a um espaço que vai durar uma semana. Em entender que morar bem é, no fundo, uma ideia — e que, como toda ideia que vale a pena, ela só existe de verdade depois que alguém teve o trabalho de torná-la matéria.
Longe do barulho. Perto do que importa.
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