A semana em que o
Brasil jovem brilhou.
Cientistas adolescentes premiados lá fora, energia limpa achando o mercado, o design nacional em alta — e uma cadeira feita para não fazer nada.
Sábado de manhã. Café na mão, a semana inteira já fechada atrás de mim. Esta é a primeira carta da varanda — o lugar onde eu paro para olhar o que passou e escolho, de propósito, reparar no que está dando certo. Não por ingenuidade: o mundo é complicado e há quem cuide de nos lembrar disso o dia inteiro. Aqui é o contrário. Aqui a gente senta para ver o que, no meio de tudo, está melhorando.
E esta semana, o melhor que vi tinha sotaque brasileiro — e pouca idade.
Da varanda
Nove estudantes brasileiros voltaram dos Estados Unidos com oito prêmios da Regeneron ISEF, a maior feira de ciências pré-universitária do mundo, que reúne cerca de 1.600 jovens de uns 60 países. O que me parou na varanda não foi só o número de medalhas — foi de onde elas vieram. Os premiados são de nove estados, do Amapá ao Rio Grande do Sul, passando por Amazonas, Bahia, Ceará, Maranhão. Não é o mapa que a gente costuma associar à ciência de ponta. E é justamente esse o ponto.
Os projetos falam de saúde, meio ambiente, agricultura, inteligência artificial. Um deles, de uma estudante de Manaus, investiga estímulos sonoros para atuar sobre genes ligados ao Alzheimer — o tipo de ideia que a gente imagina saindo de um laboratório milionário, e que saiu de um colégio na Amazônia.
É fácil, no barulho dos dias, acreditar que o talento mora só em alguns endereços. A semana lembrou o contrário: ele está espalhado pelo país inteiro, esperando apenas uma feira de ciências, um professor teimoso, uma chance. Reparar nisso não é otimismo bobo. É só prestar atenção em quem normalmente não aparece na primeira página.
Reparei
A energia limpa achou o pé no mercado. Algumas empresas de energia renovável — solar, nuclear de pequeno porte, geotérmica — estrearam na bolsa nas últimas semanas com avaliações robustas. E há uma ironia boa no motor disso: parte da demanda que as impulsiona vem da fome de eletricidade dos data centers que sustentam a inteligência artificial. A corrida tecnológica está, sem querer, financiando a transição energética. Nem todo efeito colateral é ruim.
O design brasileiro em alta. O país bateu seu próprio recorde no iF Design Award deste ano, um dos prêmios mais respeitados do mundo, com mais de cem projetos premiados — de móveis a arquitetura de interiores. O traço que une boa parte deles é justamente o que temos de mais nosso: materiais naturais, curvas, uma conversa com a paisagem. É o Brasil sendo reconhecido lá fora não por imitar, mas por ser brasileiro.
Estamos voltando à Lua. Depois de décadas de relativo silêncio, há de novo planos concretos de missões à Lua ainda este ano. Não muda a sua semana em nada prático — e talvez seja por isso que vale reparar. Há algo de saudável numa espécie que, mesmo cheia de problemas em casa, continua olhando para cima e perguntando o que há mais longe.
Amenidade
A varanda, no fundo, pede uma cadeira. E se eu tivesse que eleger uma, seria a Poltrona Mole, de Sergio Rodrigues, desenhada nos anos 1950. Baixa, larga, de couro folgado sobre madeira robusta, ela é o oposto de uma cadeira de escritório. Não foi pensada para a produtividade — foi pensada para afundar, ler, cochilar, deixar a tarde passar. É, talvez, o móvel mais brasileiro que existe: a tradução em jacarandá da ideia de que descansar também é uma forma de viver bem. Combina, aliás, com o resto da carta: o mesmo país que premia seus jovens cientistas e seu design inventou a cadeira perfeita para não fazer nada. As duas coisas cabem na mesma varanda.
Bom fim de semana. Nos vemos no próximo sábado.Thiago Marsicano, da varanda · Junho de 2026
Longe do barulho. Perto do que importa.
A próxima carta chega sábado.
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