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A cidade, a moradia e o imaterial.

Arte e Cultura·16 jun·6 min

Es Devlin em São Paulo: quando o espaço vira experiência coletiva.

Fui ver a exposição na Cidade Matarazzo. Saí pensando sobre o outro, sobre luz, sobre o que separa um espaço que contém de um espaço que transforma.

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Trabalhei por anos com produção de cenografia. Aprendi nesse ofício que o espaço comunica antes de qualquer palavra — que a posição de uma fonte de luz, a altura de um teto, a textura de uma superfície já dizem algo ao corpo antes que a mente processe qualquer coisa. Por isso fui ver 'Sou o Outro do Outro', a exposição de Es Devlin na Casa Bradesco, com um tipo de atenção específico: o de quem conhece a linguagem por dentro e quer ver o que ela faz com ela.

Devlin é conhecida no Brasil principalmente pelas cenografias monumentais que criou para Beyoncé, U2, Lady Gaga, Kendrick Lamar. Palcos que viram cidades. Visuais que ficam na memória por décadas. Mas a exposição na Cidade Matarazzo não é sobre escala. É sobre o oposto: o que acontece quando você retira o espetáculo e deixa só o espaço — e as pessoas dentro dele.

Antes da exposição — o que o Abstract revela

Quem quiser entender a exposição com mais profundidade tem um atalho valioso: o terceiro episódio de Abstract: The Art of Design, a série da Netflix sobre processo criativo de designers de referência mundial. O episódio acompanha Devlin no seu cotidiano — e revela que seu processo criativo se organiza em torno de cinco elementos fundamentais: espaço, luz, escuridão, escala e tempo.

Não são conceitos abstratos — são variáveis que ela manipula com precisão de quem passou décadas aprendendo o que cada uma faz com o corpo humano. O documentário mostra como Devlin buscou ativamente oportunidades para exercitar esse olhar, testar limites e afinar o repertório sensorial que depois aplica em escala. A exposição em São Paulo é, em certo sentido, uma conversa dela consigo mesma sobre essas variáveis — destiladas ao mínimo, testadas num espaço real, abertas ao efeito que o outro produz nelas.

Devlin não projeta para impressionar. Projeta para provocar uma sensação que o visitante não esperava ter. Essa é a distinção que o Abstract torna visível — e que a exposição confirma ao vivo.

O espaço como protagonista — e o outro como conclusão

Devlin tem uma convicção que atravessa toda a sua prática: 'O espaço é um protagonista importante no processo.' Não cenário. Não suporte. Protagonista — algo que age, que interfere, que muda o que acontece dentro dele. É uma distinção que parece sutil e é radical: se o espaço é protagonista, quem entra nele não é espectador. É parte da obra.

Isso se torna literal no Mirror Maze — o labirinto monumental de espelhos que ocupa o centro da mostra. Dentro dele, você se vê multiplicado, fragmentado, superposto com a imagem de quem está ao seu lado. Não dá para ter uma experiência individual ali. E é exatamente essa a intenção: Devlin projetou cada instalação desta exposição para ser completada pelo visitante. Assim como no Pavilhão do Expo 2020 em Dubai, onde cada um dos milhões de visitantes era convidado a contribuir com uma palavra para uma mensagem coletiva, aqui o espaço existe em potencial — e só se realiza quando o outro chega.

Isso me tocou de uma forma que nenhuma leitura sobre a exposição conseguiria. Porque é exatamente o que a cidade faz — ou deveria fazer. Um bairro que funciona não é uma soma de imóveis. É o que acontece entre as pessoas que habitam esses imóveis. A experiência urbana é sempre coletiva, mesmo quando parece individual.

Entrei no Mirror Maze com desconhecidos e saí pensando que talvez a maior crise do espaço contemporâneo não seja arquitetônica. Seja a ausência de situações que nos obrigam, de forma gentil, a reconhecer o outro.

A inteligência dos meios simples

O segundo ponto que me ficou — e aqui falo diretamente como alguém que passou anos calculando efeitos de luz, decidindo onde a sombra vai cair, escolhendo materiais pelo que eles fazem à percepção — é a economia radical de Devlin.

As seis instalações da exposição são feitas, em essência, de espelhos, luz e sombra. Não há tecnologia oculta sofisticada, não há materiais exóticos. O que há é inteligência aplicada com precisão cirúrgica: saber exatamente onde posicionar uma fonte de luz para que ela crie a sensação desejada. Saber o ângulo do reflexo que vai multiplicar sem distorcer. Saber onde a sombra precisa cair para que o espaço pareça infinito quando é finito.

Quem assistiu ao Abstract reconhece de onde vem essa precisão. Devlin passou anos buscando oportunidades para testar e acumular repertório sensorial — e o resultado aparece aqui em sua forma mais depurada. Uma exposição que parece simples na superfície e é complexa na intenção. Exatamente como um bom apartamento — novo ou antigo: quando funciona, você não consegue explicar por quê. Só sabe que quer ficar.

Sofisticação não é complexidade. É saber o que retirar até que o essencial apareça. Devlin sabe disso. E os melhores projetos de moradia que já vi também sabem.

O que levar da exposição

'Sou o Outro do Outro' está em cartaz na Casa Bradesco, na Alameda Rio Claro, 190, no complexo Cidade Matarazzo, na Bela Vista — a oito minutos a pé da estação Trianon-Masp do metrô. Funciona de terça a domingo, das 12h às 20h. Entrada gratuita às terças, mediante reserva pelo aplicativo Mata.

Se você for, a sugestão é ir sem pressa — e, se possível, assistir ao episódio do Abstract antes. Não porque o documentário explique a exposição, mas porque ele contextualiza de onde vem o olhar de Devlin. Você entra entendendo que aquele espaço não é decoração. É décadas de observação sobre o que luz, sombra e escala fazem com o corpo humano. E que ele só se completa quando você chega.

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Thiago Marsicano
Thiago Marsicano
especialista em ambientes construídos, pesquisador urbano e intermediador de imóveis de alto padrão em São Paulo. Junho de 2026.
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